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Mostrando postagens com o rótulo Polycrônicas

Silenciando...

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"...Nunca mais plateia no Municipal..." O som dos saltos sobre os paralelepípedos da rua era a companhia da noite. De vez em quando um cachorro latia em algum lugar como se lhes fizesse companhia. Os passos tortos surpreendiam pelo equilíbrio ou, por vezes, a falta dele, mas andar na ponta dos pés nunca foi um problema. Saíra da festa antes do horário, madrugada a dentro, sem destino. Na mão ainda carregava uma garrafa de gin, a boca marcada pelo seu batom vermelho. Mais um gole e dava-se conta do fim do precioso líquido, com raiva jogava a garrafa contra a primeira parede que conseguia encontrar na penumbra, quase caíra com o impulso dado, mas retomara a compostura e seguia seu caminho. Música! Conseguia ouvir música e risos ao longe. Uma festa? Será que conseguia entrar. Passava as mãos pelos cabelos volumosos, puxava os seios fartos pra cima e acertava os cantos do batom e em meio a esse gesto olhava através da janela. Era um pub a moda antiga, bancos altos ...

Alguém pra vida toda

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Você sabe que encontrou alguém pra vida toda quando um mero "bom dia" faz falta e quando não o recebe, você sai da cama como se te faltasse - literalmente - um pedaço. É saber que o mundo faz sentido quando abre os olhos e o primeiro sorriso sonolento que você vê, também te faz sorrir. O alguém certo vai ser aquele que vai te acompanhar ao boteco da esquina e também naquele restaurante fino. Vai adorar fazer uma maratona de série e ir fazer aquela trilha. Uma ida ao museu ou acampar na floresta. Não importa o lugar, sempre vai valer apena estar ao lado D'ele. O alguém certo não vai te fazer sossegar e sim, dobrar a dose de insanidade e diversão. Risadas em dobro, aventuras em dobro, sorrisos em dobro, abraços em dobro, beijos infinitos. Nada de subtrair, nada de completar. Vocês serão completos sozinhos e apenas elevarão a felicidade a outro patamar. O alguém pro resto da sua vida faz seu coração palpitar, o frio na barriga subir, as mãos suarem, a respiração fal...

Sobre o vendaval...

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Moço, agora é tarde . Você veio com força e ao chegar com todo seu vendaval derrubou minhas muralhas e tirou a poeira do meu castelo. Agradeço-te por isso, todos merecemos uma faxina na alma de vez em quando. Permiti que entrasse pelas frestas e você veio de vagar, como quem não quer nada. Deixei que conhecesse os cômodos, que se esbanjasse no meu infinito particular , se deleitasse da minha segurança e subjugasse minha estabilidade.

Caindo...

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“... Somos programados pra cair.” Aqui da varanda tudo parece distante. As pessoas se transformam em formigas, seguindo suas rotas, seguindo seus caminhos, seguindo sua rotina. Aquela rotina que satura e acumula pensamentos e dores. Exatamente aquela rotina que me satura a alma. Não sei ao certo qual gota foi a última e que me fez transbordar. Daqui de cima quase não ouço as buzinas e o som incessante do tráfego lá embaixo, mas vejo e acompanho com toda calma do mundo o carro vermelho virar a esquina, parar em frente a faixa de pedestres, virar a direita e desaparecer.

Sobre primeiros encontros...

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Tudo começa com um convite inesperado. Então com aquele sorriso bobo digita e apaga as respostas procurando aquela ideal, que demonstre o interesse, mas não passe nervosismo. Decisão do local, da hora, dúvidas e problemas solucionados e a demora para chegar o tal dia, definitivamente não ajuda. Você começa a se preocupar com o cabelo, com as espinhas que apareceram, com a roupa, o sapato e sai provando todas as roupas que gosta, com vários penteados, maquiagem, sem, cabelo solto, preso... E depois de finalmente decidir tudo, percebe que vai ser impossível de usar. Muda tudo e decide pelo básico, o medo de errar ali... Soprando ao pé do ouvido.

Platônico...

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"...De olhar vendido te vendo... " Lá estava ela novamente. Todos os dias, na mesma hora. Lá estava ela, linda como sempre. Quanto a mim, conseguia apenas passar em frente a sua janela da forma mais lenta possível, para absorver ao máximo sua imagem, a forma que seus longos cachos castanhos lhe caíam sobre os ombros ou como ela os domara com uma fita combinando com a roupa. A blusa que lhe marcava o decote ou as mangas recatadas. E eu não me importava com nada disso. A melhor parte de tudo o que via, eram seus lábios e como sempre estavam adornando um sorriso. Não apenas um sorriso, o sorriso mais lindo de todos, como se apenas ele pudesse devolver a alegria do universo. Talvez isso fosse um exagero do meu coração apaixonado, mas de que importava? Era um devaneio que eu guardaria para sempre comigo.

Crônica Urbana II - O Metrô

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Algumas pessoas da região metropolitana acabam aderindo ao uso desse meio de transporte. Seja por opção ou por não ter outra opção. A tarefa é sempre árdua e a viagem, uma aventura. Ela começa já na hora de comprar o bilhete: ou a fila vai estar gigantesca ou você vai ter a sorte de chegar pouco antes da multidão que brota do chão. O impressionante é que, não importa a quantidade de plaquinhas e pedidos educados e áudios e qualquer outro artifício que seja usado, ninguém vai comprar o bilhete com dinheiro trocado. E se você for essa pessoa, pode ter a certeza de voltar com o bolso cheio de moedas, fazendo barulho maior que mendigo sacudindo latinha de esmola e de brinde ainda aguentar a cara feia do atendente.

Crônica Urbana I - T.I. Rio Doce

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Recentemente reformado ou, seria melhor dizer, em uma reforma eterna, o terminal de Rio Doce não é muito conhecido fora do ciclo de usuários. Mas com toda a certeza alguém já ouviu falar das lendas Rio Doce/CDU, Rio Doce/Dois Irmãos, Rio Doce/Piedade e seu primo Rio Doce/Barra de Jangada. Os quatro ônibus que percorrem os caminhos mais longos desde o ponto de partida até o fim do mundo. Além das quatro estrelas, outras linhas circulam pelo local: Rio Doce/Princesa Isabel, sua linha direta com o metrô do Recife depois de fazer a curva sabe-se lá onde; Rio Doce/Príncipe te leva até o Derby, é logo ali, mas parece uma eternidade; Rio Doce/Conde da Boa Vista, você se pergunta porque não pegou outro; Rio Doce/Circular, você não sabe onde ele passa nem pra onde vai; Alameda Paulista/T.I. Rio Doce, não dá pra ver a parte de dentro do ônibus; Loteamento Conceição/Rio Doce (PE22), você pode estar na esquina, mas ao avistá-lo, aprende a voar pra chegar ao terminal antes dele ou cada fila gan...

Sobre um desencontro...

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Aquele som acabava tirando minha atenção do livro tão compensador que eu lia. Gritos, reclamações, tapas no vidro, mais gritos e o ônibus retomava seu caminho depois que a usuária escandalosa descia. Mesmo com os fones de ouvido eu ainda consegui ouvir toda a confusão. Depois de ser tirada de dentro da minha pequena bolha, me atrevo a olhar em volta e ver as pessoas que subiram e acomodaram-se enquanto eu estava absorta nas páginas. Sempre tive essa mania, olhar para as pessoas, suas expressões e tentar adivinhar o que acontecia com elas, seus problemas e aflições ou o motivo de seus sorrisos, para onde estavam indo ou de onde vieram.

Seu...

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"Eu tava só, sozinho..." Eu sempre fui do tipo sozinho. Nunca tive muitos amigos e nem se quer conhecidos. Os vizinhos me chamam de “aquele cara de cabelo comprido da casa verde” e não precisavam saber de mais nada sobre mim. Muito menos que fui abandonado e por isso estava agora nessa cidade de merda, com um emprego medíocre e sozinho. Sem parentes ou amigos para me aturar enquanto choro minhas pitangas. O que eu tinha mais próximo do que chamam de amigo era o Carlos, paulista perdido nos confins do nordeste, sozinho, mau humorado e anti social como eu. Às vezes saíamos para beber. Eram dias bons, sentávamos no bar, pedíamos uma cerveja cada e ficávamos soltando fumaça e dando goles na boca da garrafa enquanto olhávamos a rua, as pessoas que passavam, expressões e roupas estranhas. Assim íamos noite a dentro, as vezes até amanhecer. Conversar? Para que?

Alguém...

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"...Um outro alguém que me tomou o seu amor." Eu podia ouvir o som dos seus passos ao longe, rápidos e curtos. Sempre ficavam mais lentos quando se aproximava da porta de vidro. Acompanhava então seus movimentos, arrumar a franja que teimava em lhe cobrir os olhos, arrumar a alça da bolsa sobre o ombro direito, enfiar os dedos nos passadores da calça para puxá-la levemente para cima, passar as mãos sobre a barriga de forma a alinhar a blusa e finalmente entrava. Acenos e sorrisos para todos. Cumprimentos lentos até chegar a sua mesa, onde não precisava virar a cabeça para te olhar. Bastava apenas me inclinar um pouco para o lado e visualizar-te por trás do monitor do meu computador.

Liberdade...

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"...E eu que pensei que fosse o fim..." Abri os olhos e por instinto levei meu braço para o lado esquerdo da cama, senti os lençóis vazios, o travesseiro frio e pude apenas suspirar. Estava difícil me acostumar a dormir sozinho de novo, mas era necessário. Ela não voltaria. Já estava cansado de lutar contra esse vazio e a falta que sentia dela. O mais difícil era aturar minha mãe falando que tinha perdido a mulher da minha vida por causa desse meu jeito super-romântico de ser. Sabe, algumas mulheres achariam isso algo bom! Só não encontrei uma dessas ainda. Colocava os pés no chão e precisava chutar as folhas de papel para os lados na busca pelo chinelo.

Sobre a rotina...

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O despertador do celular toca pontualmente na hora programada, o som baixo mais alerta sobre a hora do que a desperta, despertar é para aqueles que dormem e não para os que acompanham o nascer do sol. Ainda olha para o teto vislumbrando as finas tiras de sol desenhadas sobre o gesso branco como se não fizessem sentido a sua existência, na sua opinião a noite poderia ter se estendido um pouco mais. O segundo despertador a lembra que precisa levantar, não tem muita escolha ou outra opção.

Insensível...

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“... O meu amor é mais caro, diz quanto você pode pagar...” O toque insistente do telefone me tira a paciência. Sinto vontade de jogá-lo contra a parede e transformar esse pequeno aparelho em milhões de pedaços silenciosos. A forma de identificação facilitava minha vida, para cada grupo um toque único ou para as pessoas mais especiais ou nesse caso, as mais chatas. De forma que eu sabia quem me liga apenas nos primeiros acordes polifônicos. E daí então vinha a decisão de atender ou ignorar. Já estava cansado de ouvir aquela música e ver aquele nome piscando na tela, Angélica, Angélica, Angélica. O que ela queria desta vez? Eu já lhe dera o que fora pedido, pelo que pagou e apenas isso. Talvez esse seja o problema, ela queria o “mais” que eu não lhe podia ofertar assim de tão bom grado.

Sobre as nuvens...

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Eu não tinha mais nada para fazer daquele lado do globo, nem coisas que eu não me importo de deixar para trás. Tanto que não foi preciso mais do que algumas horas para arrumar as duas pequenas malas e uma mochila com os pertences pessoais. O simples apartamento que eu alugara mobiliado foi um achado e facilitador da minha partida, precisei apenas entregar a chave a dona e me despedir. Ouvi vários “porquês e para ques” e tantos outros “é perigoso”, mas a essa altura do campeonato podia apenas agradecer a todos os conselhos, as xícaras de açúcar e refeições enviadas nos fins de semana como um socorro a minha falta de tempo para cozinhar e parti.

Paz...

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Acordar era tão complicado. Aquela preguiça que forçava o corpo a ficar na cama e a vontade de sair então? Só fazia as pernas enroscarem de forma automática do lençol. Uma, duas, três sonecas ativadas do celular depois e não tinha mais tempo a perder. Lembrava de que dia se tratava e o sorriso iluminava seu rosto. Agora sim tinha um motivo pra levantar. As pernas desnudas deixavam a mostra os pelos eriçados quando os pés descalços tocavam o chão. Passos longos e saltitantes até a sala, a mão tateava embaixo das almofadas do sofá a procura do controle remoto, agora a TV ela ligada e o dedo realizava os gestos automáticos já colocando as músicas no pendrive para tocar. Balançava a cabeça no ritmo da música, arriscava até algumas notas e uns passos, rebolando daquela forma nada sensual, porém divertida.

Adeus.

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E num belo dia, chegou em casa depois do trabalho e colocou seu CD favorito para tocar. Os passos eram calmos, lentos. Não tinha mais pressa. O jantar foi preparado de forma impecável, bem como a sobremesa e o suco. Depois de satisfeita, arrumou a cozinha, a casa e sentou-se para assistir o filme favorito com uma taça de vinho e uma barra de chocolate. O que mais faltava? Chorou com no fim do filme, secou as lágrimas, tomou um banho relaxante e colocou sua roupa favorita. Novamente seu CD favorito começava a tocar. Sentou-se a mesa e em uma folha em branco deixou a caneta seguir seu curso.

O Fim...

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A leitora Nua - Yuri Krotov "A saudade é sóbria. A saudade não grita. A saudade só vem muito tempo depois do horror ante a visão do túmulo, do horror na cabeceira da cama. A saudade só sóbria e é impassível." E lá estava o livro aberto em minhas mãos. As páginas que passavam revelavam mais do que a história de amor incompreensível entre um fantasma e uma humana. Um amor doentio e protetor. O cheiro do perfume que mesmo depois de tantos anos me alcançava chegava a doer em meu peito. Precisava focar na história que lia, nos cenários magníficos, na música narrada de forma tão magnifica que podia ser ouvida através das letras, poder que apenas Anne Rice conseguiu me transmitir até hoje.

Salve-me

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Salve-me. É com esse apelo desesperado que começo mais um dia. Não sei bem para quem ou o que direciono meu apelo... Olho em volta e tento analisar as opções: talvez para o sol que apesar de tudo insiste em nascer e devolver as cores que tirei do meu mundo ou para o vento frio que me joga novamente sob as cobertas e elas apenas me acolhem me prendendo em meu sofrimento. Salve-me. Posso parecer insistente mas é o que a necessidade obriga, torço para que o dito seja finalmente ouvido. Salve-me. Apelo mais uma vez e mais uma vez o socorro não vem. Salve-me. E dessa vez escuto em minha própria voz que não existe saída. 

No fundo...

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E então, você passou por mim. Eu sabia que estava a caminho do fundo do poço pois eu já estive lá. Conheci muito bem a escuridão e foram longos anos até conseguir galgar até a metade do caminho, eu sabia que não poderia desistir agora mas no breve instante em que meu olhar cruzou com o seu, eu pude ver seu desespero e sua dor. Soltei a parede limosa, desisti do meu breve sucesso e deixei a gravidade levar meu corpo até o fundo do poço junto ao seu.